evig: (11 - flores)
2017-09-20 10:16 am
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Represa

O ar estava úmido e abafado. Pesava. A terra molhada e arenosa cheirava à matéria em decomposição. O dia todo ensaiou para que chovesse, mas a chuva ainda não vira. Já era noite e as duas continuavam deitadas na represa.

- Você... acha que... ele vai prum lugar ruim?
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Nota: Conto escrito para o concurso 5 - Morte, do perfil Café com Letras do wattpad.
evig: (09 - xícara)
2017-09-20 10:06 am
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Camila

Evelin tinha conhecido uma garota linda numa balada há seis dias. Tinham ficado e desde então conversavam toda noite pelo whatsapp. Na noite do sétimo dia, sonhou que Camila a chamava através da janela. No sonho, Camila parecia flutuar até sua cama, vestida com uma camisola preta. Seu coração batia forte enquanto ela beijava seu pescoço. Ao sentir uma forte mordida no local, ela empurrou Camila, fazendo com que ela caísse da cama e batesse a cabeça no chão. Evelin correu até o canto oposto do quarto pressionando o sangue.

- Você… Você… Você me mordeu!

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evig: (06 - timidez)
2017-08-06 09:51 am
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A votação do arquivamento do caso Temer

Tinha saído briga. Alguém disse um palavrão - talvez “governabilidade” - e meu tio dizia para a tv: - Dá um soco na cara dele! Meu outro tio passou dizendo: - Pra quê isso? Nada vai mudar... O presidente do senado pediu para que os discursos fossem mais ágeis. Pela honra do presidente Temer, meu voto é sim. É uma pouca vergonha - senadora, agilize o discurso, disse o presidente do senado - senhor presidente, meu voto é não. Contra essa esquerda comunista, eu voto sim.

Meu primo menor disse: - Eu tô torcendo pro não. Mas o sim ganhou. Quando a votação acabou, eles foram assistir o futebol aqui em casa. Ninguém soltou fogos.
evig: (13 - moça)
2017-07-31 12:51 pm
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Scrapbook: Considerações 2017-1

Rapidão e sem tópicos.

Favoritei músicas que já eram favoritas, apenas formalizei. Sharon van Etten é a única artista da lista que eu conheci a pouco tempo.

Vi bastante filmes nacionais novos, alguns clássicos do expressionismo alemão e uns filmes que queria a ver há alguns anos. Destaco A Montanha Matterhorn, o preferido da lista, mas talvez o melhor filme dela seja A Criada. M; O Gabinete do Dr.r Caligari; Canção da Volta; O Exército dos Frutas; Adeus, Meninos; e para quem gosta de filmes predominantemente com diálogos, Retorno a Ítaca. Gostei muito também de Trainspotting e Garotos de Programa.

Em documentário: Cinema Novo para quem gosta do movimento ou quer conhecê-lo. Orestes tem uma carga dramática muuito forte, tanto de conteúdo quanto de linguagem. Ônibus 174; Lampião da Esquina; Botinada.

Terminei a terceira temporada de iZombie e ela mantém o que vem propondo desde a temporada anterior. Dear White People é obrigatória para todo mundo!

Livros: eu queria ter resenhado mais livros dessa lista, alguns que eu não vou destacar, mas isso fica para possíveis escritos do segundo semestre. Como de costume, a maioria foi para a faculdade, o que não quer dizer que eu não tenha gostado. Destaco Os Buddenbrook; Clássicos do Conto Russo; Cidade de Deus; É Isto Um Homem?; O Pai Goriot; O Morro dos Ventos Uivantes; Coração, Cabeça e Estômago; Garotos Malditos.

Minha produção, posso dizer, esteve acima da média dos últimos anos. Vênus em Aquário e Érika eram contos que estavam escritos ha algum tempo então eu revisei, modifiquei poucas coisas, dei título e publiquei no ao3. Os outros dois eu escrevi para desafios do wattpad, e fui ganhadora do segundo lugar com o conto Casa das Águas, que é bem mais ou menos, mas tem valor sentimental por motivos particulares. Acabei montando antologias (buscando algum sentido nos quase 100 contos que tenho) para mandar para editoras e uma agência de literatura infanto-juvenil. Todos recusados até o momento.

Esqueci de listar os poemas em prosa (?) que eu postei aqui no dw, e duas crônicas que já estavam escritas, mas eu resolvi publicar devido ao falecimento da minha avó. Esses textos eu deixo aqui, muitas vezes em posts apenas para assinantes, já que ou falam de assuntos que são muito recentes e eu não quero expô-los ainda, ou eu não sei o que fazer com eles por não serem ficção, por não serem bons, por terem menos de 300 palavras... são os textos da área cinzenta.
evig: (09 - xícara)
2017-07-30 08:43 pm
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Scrapbook: 2017-2

Atualizado 12/08

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evig: (05 - a cup of tea)
2017-07-29 05:19 pm
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Scrapbook: 2017-1

Fechado 29/07

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evig: (02 - relógio)
2017-07-28 10:43 pm
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Considerações do ano de 2016... é

Sim, única pessoa que lê o meu dw (oi Ezra), este é o post de considerações do ano de 2016 feito agora, no final de julho! Eu ia deixar passar, já que não atualizei como deveria o scrapbook. Mas não tem problema, já que as redes sociais fazem isso por mim :3. E já que ficar arrumando as listas meio ano depois que 2016 acabou é trabalhoso, achei mesmo que não valia a pena. O único item que não vai ficar bonitinho é o de filmes, já que o app para celular do filmow não funcionava e eu só adicionei os filmes lá quando a internet da minha casa tinha voltado (em maio?). Outra coisa que dificultou saber quando começa os filmes vistos neste ano é que meu celular morreu, então a lista que eu mantinha no bloco de notas está perdida sem que eu tivesse passado os filmes para o filmow. Não tem problema…

Comecemos com o mais simples então:

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Bom, para não haver mais confusões da minha parte, mudei o esquema do scrapbook. Vou fazer a lista por semestre. Coincide com as férias e eu consigo escolher melhor os destaques com uma lista mais enxuta. Espero que funcione!

evig: (07 - corvo)
2017-07-27 05:16 pm
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Sexo e estrutura narrativa de romances juvenis em Garotos Malditos, de Santiago Nazarian

Acabei de terminar Garotos Malditos então essas impressões que vou escrever serão mais superficiais.

Por se tratar de um livro juvenil, tem uma leveza, e principalmente, agilidade na escrita. É narrado em primeira pessoa, distribuídos em 250 páginas com uma diagramação bem espaçada e com ilustrações no início de cada capítulo. O único ponto, em se tratando da escrita, que me incomoda um pouco nesta obra é o uso do pretérito-mais-que-perfeito, corretíssimo, correto demais para um garoto de 16 anos. Mas como isso aconteceu duas ou três vezes e estava na mesma frase que tinham gírias ou até mesmo palavrões, ainda pode-se passar por uma linguagem natural de garoto que teve uma boa educação (num colégio religioso, inclusive).

Não vou me ater ao plot. Mas duas coisas me chamaram atenção e eu fiquei muito feliz de encontrá-las num livro para jovens: sexualidade e elementos de estrutura narrativa típicas de romances de fantasia/mistério sendo discutidas muito sutilmente, numa camada mais submersa da história contada por Ludo (que é onde eu enxergo o autor).
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evig: (12 - dark)
2017-07-21 10:37 am
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Chester Bennington (para Tatty)

Eu soube ontem, depois de chegar de São Paulo. Minha mãe falou “o Linkin Park morreu” e eu pensei “não, a banda não acabou, eles acabaram de lançar cd novo”. Aeh ela falou o nome do Chester e com a delicadeza dela, colocou Iridescent pra tocar. Eu coloquei os fones, fui ouvir outra coisa e ver se era verdade. E era.

Quando eu fui dormir, fiquei lembrando que a primeira vez que a gente conversou foi sobre eles. A gente já se conhecia desde o Villaça e se reconhecia como garotas que gostavam de rock. A Hagatha e a Laís tinham os assuntos delas e a gente ficava de lado. Você perguntou o que eu ouvia eu falei, e você ficou feliz e eu também.

É claro que eu tô triste. Mas tem gente muito mais triste que nós, reles fãs. Quem é a gente na fila do pão? Tem a família, os amigos, o pessoal que realmente conhecia ele e convivia com ele. A gente ainda tem a nossa relação com as músicas, com as histórias. Eu me lembro quando eu vi In the end na MTV a primeira vez, naquela época que a minha tv pegava uns canais UHF sem antena. Antes disso eu só ouvi o que todo mundo ouvia, que tocava na rádio, e as coisas do meu pai.
Pensei em monte de coisas pra te falar, mas acho que é isso.

No spotify tinha aquele verso que a gente cantava na escola: “A try so hard, and got so far. But in the end, it doesn't even matter”.
evig: (14 - cello)
2017-06-19 03:47 pm
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Trio Geração Perdida de Minas Gerais (show 2 em SP)

No dia 1 de junho, uma quinta-feira, o Vitor Brauer, o Jonathan Tadeu e Fernando Motta fizeram um show em SP, o segundo. O primeiro eu perdi e tava chovendo pra caramba, mas dessa vez eu chamei a Ká que tinha tido uma crise de fibromialgia e as duas atoladas de trabalhos para serem feitos. Mas quarto ano, já sabemos que quando chega essa época, é preciso espairecer. Pois bem, o Vitor eu já conhecia da Lupe de Lupe, o Jonathan eu não conhecia, mas se tava no rolê com o Vitor, só podia ser gente boa, mas eu tinha ouvido pouco do som dele naquela semana porque o meu celular tinha pifado e etc. O Fernando eu tinha aquela sensação de já ter ouvido falar dele, mas não lembrava e só depois que meu computador foi arrumado é que eu vi que eu tinha o álbum dele baixado e que eu já tinha ouvido enquanto fazia faxina e coisas assim (Descoberto pelo Na Mira do Groove).

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evig: (04 - banco)
2017-04-19 10:11 am
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Os Filhos de Anansi, de Neil Gaiman

Li algumas obras de Gaimam, tanto em prosa quanto em HQ e ao ler os Filhos de Anansi, fiquei com a sensação de que este livro fora escrito por um escritor novato. Até então, nenhuma obra de Gaiman me suscitou tanto desgosto. A Verdade é Caverna nas Montanhas Negras tem um problema de verossimilhança no ponto crucial da história, o nó da trama, mas apesar disso, é uma ótima história e tem seu charme na forma mista de livro ilustrado e história em quadrinhos. Os Filhos de Anansi não tem um problema estrutural propriamente. Mas há uma série de metáforas que se anulam (por exemplo: “Fulano estava tal como Sicrando quando não estava fazendo tal coisa.”); personagens que são caricatos; o limão que não tem função alguma dentro da narrativa; o relacionamento entre o protagonista e sua noiva ser oportunamente mediocre, então quando o seu irmão aparece e fode tudo, não é um grande problema, já que eles nem se amavam mesmo...

A história gira em torno de Charles, que tem uma vida mediana e descobre que seu pai, com quem não tem uma boa relação devido a diversas humilhações sofridas na infância, morreu. Ele viaja para sua cidade natal e descobre por uma das vizinhas que tem um irmão e se ele quiser, pode chamá-lo. Sem acreditar muito no método descrito pela velha, Fat Charles (como é chamado) não só recebe a visita de seu irmão, como não consegue mais se livrar dele. Spider é o tipo de personagem que me irrita do início ao fim. Sendo um semi-deus, sua vida é fácil e muito boa, faz o que quer, manipula as pessoas e não tem problemas de consciência nenhuma, sendo o extremo oposto de Charles.
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evig: (15 - leitura)
2017-03-29 01:46 pm
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O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë

Eu iniciei a leitura deste livro em 2012 ou 2013 e parei no capítulo XII devido às circunstâncias externas das quais eu não me lembro. Reli recentemente e integralmente.
Essa edição que tenho é a que a Leya (pelo selo Lua de Papel) lançou em 2009 devido à relação que os personagens de Crepúsculo têm com a obra. Dito isso, a capa, a orelha e a sinopse trabalham em função dessa relação, com o subtítulo O amor nunca morre! e o catálogo sistemático categorizando a obra como literatura juvenil. Eu comecei a ler O Morro do Ventos Uivantes por indicação e esta era a edição que veio parar aqui em casa... mas eu sabia antecipadamente sobre o plot e que a obra faz parte do cânone literário, e por isso, não pode ser apenas “uma surpreendente história de amor”, como esta edição faz crer. Não estou querendo dizer que uma história de amor não possa constar num cânone literário. Romeu e Julieta é canônico. Mas a história de Cathy e Hearthcliff tem mais implicações complexas que uma história de amor simplesmente.
[Spoilers]
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evig: (12 - dark)
2017-03-22 10:39 am
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A crítica do Wattpad

No meio do ano passado, mais ou menos, descobri a plataforma de fanfic e histórias originais Wattpad. É de lá que livros como After e Diário de uma escrava vieram, depois de ganharem popularidade. Como estudante de literatura e escritora amadora que há uns dez anos convive com esse tipo de ambiente virtual, fiz uma conta e procurando certos perfis e lendo alguma coisa percebi algumas características bem diferentes da “minha época”. A principal é que o sistema de votos e visualizações é mais importante que os comentários. E essa importância vai do que o autor acha importante, porque denota popularidade, e com popularidade, o livro aparece num ranking, que tem certa preferência nas buscas caso esteja numa posição elevada, e se sua história tiver algumas milhares de visualizações, uma editora pode querer publicá-lo em papel, o que gera mais popularidade...

A segunda diferença é que a capa do livro é tão importante quanto a história. Isso gerou uma imensidade de perfis especializados (ou nem tanto) em criar capas.
A terceira é que o papel dos comentários foi transposto aos perfis de resenhas e críticas, e é aqui que eu e Ezra entramos. Pesquisando esses tipos de perfis juntamente com os livros de desafios, nos deparamos com autores que não aceitavam histórias com teor queer e na procura de um perfil voltado para as histórias LGBTs, simplesmente não encontramos em português. Oras, criamos então o DesafioLGBT, com o intuito de divulgar (e encontrar boas) narrativas queers, além de gerar desafios literários que não sejam desafios de gênero (como são a maioria).

Como leitora e escritora, meu trabalho de leitura crítica é dramático. Quem teve perfil no Nyah! há algum tempo pode notar a queda de qualidade das histórias conforme o site foi crescendo. Não querendo ser elitista, mas já sendo, os autores que se dedicavam a escrever fanfic e mesmo originais, de fato se dedicavam e se divertiam. Aos meus olhos, talvez deslumbrados naquela época com o fanfiction.net e comunidades do LiveJournal, nossa preocupação com verossimilhança, coerência interna, e outros tópicos de estruturas narrativas eram discutidas nos comentários das histórias e fora deles, não com esses termos, mas sempre contando com a boa vontade e o olhar atento de um leitor que cedeu seu tempo para ajudar o autor. Conto por experiência própria que eu aprendi dessa forma que revisão era importante, leitor beta era importante, estruturar histórias longas e fazer perfis de personagens era importante. Descobri meus pontos fracos e com o tempo, os não tão fracos assim. Descobri temas e elementos que eu queria tentar. Me deixei tentá-los.

Talvez, tenha encontrado histórias de qualidade porque os sites que eu frequentava não eram gigantes como é o Wattpad (e porque na época, fanfics não eram publicadas, logo, a popularidade era um bônus e não um objetivo).

Um professor meu disse que as coisas ruins (que a academia diz que é ruim) devem ser estudadas também. Também ouvi em algum lugar que a leitura de livros ruins (ou filmes ruins) nos faz pensar criticamente e nos faz procurar os motivos daquela obra não ser boa (objetivamente falando).

Como crítica (minha pior versão), meu papel é ligar minha necessidade de destrinchar uma obra e entender seus defeitos à um sentimento de bom samaritanismo (que vem muito da revolta de não encontrar boas histórias com os temas que gosto) de ajudar esses escritores que cometem erros tão...primários (e que ainda sim têm grande popularidade).
A questão de divulgar mais as obras LGBTs é uma questão de princípio pessoal e de causa: há muita literatura hétero no mundo. Se a obra em questão é boa ou não, fica a cargo da resenha crítica que o nosso perfil disponibiliza.
evig: (04 - banco)
2017-03-17 02:02 pm
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A abertura das Olimpíadas

Em memória de D. Helena

- Queria ter visto a abertura das olimpíadas. Dizem que foi tão bonito...
- Foi ontem neh?!
- Foi, mais foi muito tarde, eu fui dormir.

Eu estava me fodendo pras olimpíadas, mas eu supria minhas demandas de beleza por outros meios, outras mídias. Minha avó só tianha a TV e não era sempre que passava algo bonito nos canais. Além disso, ela dividia o aparelho injustamente com os netos, que brotavam do nada na hora da sua única novela, trocavam de canal sem permissão e sentavam bem em frente à tela.

- Vai passar reprise, vó.

Não passou.

- Deve ter na internet, vó.

Até tinha, mas ela mau enchergava na tela pequena do meu smarthfone.

- As férias estão chegando, vó.

Nem estavam, mas “as férias estão chegando” era como um mantra pra ela; vivia repetindo sempre que estava de saco cheio dos netos, dos filhos, daquela casa. O problema era que ela sempre ia para a minha casa (a casa da minha mãe), no interior e com os filhos e os netos, então era meio que uma ilusão.
evig: (14 - cello)
2017-03-08 02:46 pm
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TV à cabo

Em memória de D. Helena

Cheguei em casa e estavam todos na pequena sala olhando pra TV, agora preto e branco, sugerindo programas canais soluções reclamações. Deixei meu material no quarto e fui entender o que estava acontecendo. Minha vó falava “poe no canal do padre”, meu tio reclamava “eu não quero isso na minha TV não” e o meu outro tio respondia “essa TV não tem outra entrada, é velha, por isso fica sem cor”. O marido da minha tia entrou com o controle em uma mãe e o celular na outra, reclamando com a possível atendente (porque elas são sempre mulheres?), meio gritando que não tinha cartão nenhum na caixa onde veio o aparelho, que o problemas era no segundo ponto, que a TV tava em preto e branco, e se devido ao seu pacote era de graça mesmo. Fui arrumar minha janta.

Uma hora e meia depois, mais ou menos, minha vó dizia “poe no canal do padre, eu quero ver o padre”, meu tio pedia “quero ver bang-bang, não tem bang-bang?” e o meu outro tio zapeava os canais tentando achar os prometidos cento e sei lá quantos canais da TV à cabo. Percebi que só pegavam os canais abertos. Nem tive tempo de ficar meio feliz. O marido da minha tia ainda estava no celular com a atendente, já bem irritado (não que precisasse muito para que ele se irritasse), já cancelando o segundo ponto e mandando alguém vir buscar o aparelho porque a TV dos meninos tava ligada no video-game mesmo e ele não queria mais.

No dia seguinte quando cheguei, a TV estava à cores, com os canais abertos de todos os dias. Minha vó me disse que estava só com os meninos quando o homem da TV bateu no portão e perguntou se era lá que seria instalado a TV à cabo. Ela disse que sim, e mandou o homem ir lá em cima. (Só um esclarecimento: a casa da minha vó e da minha tia ficam no mesmo terreno. A da minha tia fica mais em baixo, perto do portão e a da minha vó, menorzinha, fica lá em cima.)

Minha vó parou de contar e ficou me olhando com aqueles olhos castanhos claros e espertos, tão diferentes dos meus, e deu uma risada.
evig: (02 - relógio)
2016-10-07 12:45 pm
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A festa do domingo

Era aniversário de minha mãe e ela fizera questão de chamar todos os parentes. Evidentemente, as crianças vieram junto. Só não veio um tio, o alcoólatra, não sei se por não querer vir ou por não terem perguntado se ele queria vir. Eu mesma tinha me esquecido dele; minha irmã foi quem notou sua falta. Então estamos falando de oito pessoas, tirando os moradores (mais ou menos regulares) da casa: eu, minha mãe, minha irmã e meu irmão. Meu primo mais velho trouxe a namorada (que eu nem sabia da existência), meu irmão estava com a dele desde que eu havia chegado na sexta-feira à tarde, minha irmã chegou só no domingo com o namorado e o irmão deste. Eu não trouxe ninguém.

Mas a estória acontece no sábado, quando havia oito pessoas na casa: eu, minha mãe, meu irmão e a namorada, minha tia e seus dois filhos, e a vó. Além dos dois gatos.

Meus gatos odeiam crianças. Elas ficam correndo atrás deles, pegando, apertando, tratando como brinquedo. Eu odeio crianças. No geral. Mas odeio principalmente meus primos, esses dois mais novos. Porque são crianças e porque eles são mau-educados, birrentos, mimados e insuportáveis. Quando eles chegaram na sexta à noite, comecei a minha tática de tentar desaparecer dentro da minha casa: me manter concentrada totalmente em uma única atividade; não falar ou falar o mínimo possível com alguém; não circular pelos cômodos enquanto alguém estivesse neles; diminuir meu ki para que mau percebessem minha presença. A tática desmoronou na manhã do sábado porque dormi muito mal e acordei de mau-humor. Minha famosa paciência, que é tão grande que às vezes vira um defeito meu, se encolheu e ficou do tamanho de uma azeitona.

Não era nem a hora do almoço quando eu gritei a primeira vez com o mais novo dos meninos. De tarde, cansada de manter a compostura diante das pequenas crueldades para com Syd, o gato, peguei ele do colo claustrofóbico do menino mais novo e me tranquei no quarto com ele. Granola tinha sumido, mas estava segura, eu tinha certeza. Syd não. Ele apanha dos gatos que aparecem em casa, não tem tanta disposição para correr, um de seus rins é menor que o outro, o que demanda cuidados especiais e já estava visivelmente estressado. O menino chutou a porta do meu quarto e eu gritei de dentro que ela ia quebrar (é uma porta de vidro). O menino mandava eu abrir e eu tentei ignorá-lo. Syd estava deitado na cama, olhando para a porta. O menino saiu por um segundo e voltou com uma chave, tentou abrir a porta, e sem sucesso, saiu de novo e foi buscar outras chaves enquanto exigia que eu abrisse a porta porque ele queria o gato. Eu podia ouvir o meu primo mais velho dizer que o menino era um trouxa, o quarto era meu, e eu podia fazer o que bem entendesse. Não era isso o que eu queria que o menino entendesse. Em outra tentativa frustrada de abrir a porta, falei que o gato não é um brinquedo e que ele não gosta de ser perseguido e apertado, nem de ficar a força no colo de pessoas que ele não conhece. Ou algo mais ou menos assim. Outras pessoas vieram interferir tentando convencer sem muita convicção o menino a nos deixar em paz. A mãe não estava na casa e o pai tinha voltado pra São Paulo depois de trazê-los na sexta.

Comecei a me sentir ridícula. Eu, com vinte e seis anos, brigando com um menino de sete ou oito anos, dentro da minha própria casa, por um gato. Nós dois sustentando nossas certezas: eu, protegendo como uma mãe o gato que eu amo, mas me dando o luxo infantil de descontar o meu mau-humor no mais fraco, o menino; o menino, pouco acostumado à reais frustrações, querendo o gato pra si porque o quer e quer agora, se aproveitando a ausência de figuras de autoridade para exercer autoridade ao mais fraco, o gato. Por que nós, parentes, devemos ajudar a criar as crianças se elas não nos respeitam como figuras de autoridade? A vó criou os netos e não recebe nem o direito de poder assistir o que ela quer na sua própria casa. É desrespeitada e humilhada diariamente por um moleque de oito anos. E ele é assim com todos os outros adultos (ou adultos incompletos, como é o meu ridículo caso), com exceção da mãe e do pai, porque eles tem poder de troca, troca material, e poder de punição, física.

Depois que o menino desistiu de tentar abrir a porta, fiquei trancada no quarto por algumas horas, até sentir fome. Saí, deixei Syd dormindo serenamente na cama, e fui comer qualquer coisa na cozinha. Quando voltei, fui pro quarto da minha mãe, onde a vó estava vendo o programa que ela gostava. Syd também foi para lá, trocar de cama para dormir mais. O menino entrou no quarto e pegando o gato no colo olhou pra mim e disse que aquele quarto não era meu. E nem dele, pensei. Qual a vantagem que ele estava contando? Que batalha maluca ele se via vencedor? Disse uma última vez, cansada, pra soltar o gato porque ele não queria colo. Syd tentava escapar, mas era doce demais pra arranhar quem quer que fosse. Tentei focar na TV, ignorar os ruídos, baixar o meu ki e fingir que eu não existia. Ainda tinha a festa no domingo...
evig: (12 - dark)
2016-10-05 01:48 pm
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Blecaute

Acabou a energia e você pode imaginar quanto tempo se passou até eu me tocar de todo o silêncio que me envolvia. Não durou nem cinco minutos para que eu começasse a chorar desesperadamente, sem motivo. Fazia um tempo que eu não estava feliz. Não que tivesse motivos para ficar triste, mas também não tinha motivos para estar feliz. E você pode dizer que sempre tem motivos para ser feliz, olhar para as pequenas coisas que eu tinha. Mas eu era adolescente e o que saltava aos meu olhos era tudo o que não tinha. Alí estava abarrotado de nada. E eu passava meus dias enchendo esse nada de ruídos, fragmentos, qualquer coisa que enganasse a fome, os sentidos.

Mas sem energia ficava muito óbvio o silêncio, o imenso nada. Então, o que me restava, aquela preciosidade que eu não ousava expôr por me sentir demasiada exposta transbordou em lágrimas copiosas no silêncio e no escuro. Que nem era escuro, era uma penumbra na qual eu podia enxergar minhas mãos. A penumbra é mais cruel que o escuro. O escuro me dá uma coragem que sai do nada e entra em mim, fazendo com que eu me sinta misturada ao escuro, me perceba diluindo. Faz com que eu acredite que possa desaparecer. A penumbra só mostra o contorno das coisas, deixando elas ocas, acusativas e cruéis. Minhas mãos pareciam ocas, mas sem ser cruéis ou acusativas, eu não tinha força pra tanto sentimento. Eu só sentia o nada.

Fiquei com medo quando minha preciosidade derramada se esgotou. Era o último fio de humanidade que havia sobrado: o medo. Eu continuava parada no meio da sala, em pé, sendo acusada pelas formas ocas das coisas. Tentei desaparecer e talvez tivesse conseguido por um tempo porque a energia tinha voltado, a geladeira tinha dado um estalo, as luzes se acenderam, o aparelho de som piscou sedutor pra mim. Mas eu ainda tava no meio do caminho da volta. Queria ter ficado lá, no nada, misturada e diluída, desaparecida. Não era mais possível. Eu não tinha força nem para permanecer desaparecida. Teria que ser uma coisa oca sobrevivendo ao nada ao redor.
evig: (13 - moça)
2016-09-27 11:19 am
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5:30

Ainda não tinha clareado, nem o ônibus tinha passado quando vi um cavalo branco mexendo num saco de lixo. Um cavalo mexendo no lixo. Um cavalo branco no lixo. As poucas pessoas no ponto de ônibus também olhavam o cavalo disfarçando o absurdo da cena. O cavalo procurando algo pra comer no lixo. Um cavalo branco mexendo no lixo. Um cavalo. Branco. No lixo.
evig: (08 - chifres)
2016-09-14 11:26 am
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Essa História Você Já Conhece

É sobre um rapaz bonito que aparentava ser mais jovem do que era, o que pra ele era uma vantagem, já que ganhava a vida como cacheiro nos anos sessenta, você lembra como era o Brasil nessa época?! Ele viajava por aí vendendo coisas que as pessoas não queriam comprar, mas que acabavam comprando. Ele acabou encontrando esse outro rapaz, também muito bonito, não muito mais novo, mas que aparentava ser um homem feito. Ele usava aquelas costeletas da moda, sabe?! E era meio fechadão. Trabalhava com papeis, apólices, contabilidade de gente que morava nos quintos dos infernos, mas que por alguma razão tinha relações com a firma em que trabalhava em São Paulo. O cacheiro era do Rio de Janeiro.
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evig: (Default)
2016-09-14 11:12 am
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Cinco minutos antes de sair de casa

As portas que abrem e fecham
Sorriem e me acusam
Eu Penso que sinto que vou
Não vou

Janelas me olham e julgam
Eu Finjo que penso que vou
Não vou

Paredes comprimem meu corpo
Me encolho e estico
E Digo que finjo que vou
Não vou

O chão derrete e me engole
Eu Sinto que grito que vou
Não vou