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Juliet

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"Há prisões piores que as palavras."
(Carlos Ruiz Zafón)

Evig

evig: (12 - dark)
No meio do ano passado, mais ou menos, descobri a plataforma de fanfic e histórias originais Wattpad. É de lá que livros como After e Diário de uma escrava vieram, depois de ganharem popularidade. Como estudante de literatura e escritora amadora que há uns dez anos convive com esse tipo de ambiente virtual, fiz uma conta e procurando certos perfis e lendo alguma coisa percebi algumas características bem diferentes da “minha época”. A principal é que o sistema de votos e visualizações é mais importante que os comentários. E essa importância vai do que o autor acha importante, porque denota popularidade, e com popularidade, o livro aparece num ranking, que tem certa preferência nas buscas caso esteja numa posição elevada, e se sua história tiver algumas milhares de visualizações, uma editora pode querer publicá-lo em papel, o que gera mais popularidade...

A segunda diferença é que a capa do livro é tão importante quanto a história. Isso gerou uma imensidade de perfis especializados (ou nem tanto) em criar capas.
A terceira é que o papel dos comentários foi transposto aos perfis de resenhas e críticas, e é aqui que eu e Ezra entramos. Pesquisando esses tipos de perfis juntamente com os livros de desafios, nos deparamos com autores que não aceitavam histórias com teor queer e na procura de um perfil voltado para as histórias LGBTs, simplesmente não encontramos em português. Oras, criamos então o DesafioLGBT, com o intuito de divulgar (e encontrar boas) narrativas queers, além de gerar desafios literários que não sejam desafios de gênero (como são a maioria).

Como leitora e escritora, meu trabalho de leitura crítica é dramático. Quem teve perfil no Nyah! há algum tempo pode notar a queda de qualidade das histórias conforme o site foi crescendo. Não querendo ser elitista, mas já sendo, os autores que se dedicavam a escrever fanfic e mesmo originais, de fato se dedicavam e se divertiam. Aos meus olhos, talvez deslumbrados naquela época com o fanfiction.net e comunidades do LiveJournal, nossa preocupação com verossimilhança, coerência interna, e outros tópicos de estruturas narrativas eram discutidas nos comentários das histórias e fora deles, não com esses termos, mas sempre contando com a boa vontade e o olhar atento de um leitor que cedeu seu tempo para ajudar o autor. Conto por experiência própria que eu aprendi dessa forma que revisão era importante, leitor beta era importante, estruturar histórias longas e fazer perfis de personagens era importante. Descobri meus pontos fracos e com o tempo, os não tão fracos assim. Descobri temas e elementos que eu queria tentar. Me deixei tentá-los.

Talvez, tenha encontrado histórias de qualidade porque os sites que eu frequentava não eram gigantes como é o Wattpad (e porque na época, fanfics não eram publicadas, logo, a popularidade era um bônus e não um objetivo).

Um professor meu disse que as coisas ruins (que a academia diz que é ruim) devem ser estudadas também. Também ouvi em algum lugar que a leitura de livros ruins (ou filmes ruins) nos faz pensar criticamente e nos faz procurar os motivos daquela obra não ser boa (objetivamente falando).

Como crítica (minha pior versão), meu papel é ligar minha necessidade de destrinchar uma obra e entender seus defeitos à um sentimento de bom samaritanismo (que vem muito da revolta de não encontrar boas histórias com os temas que gosto) de ajudar esses escritores que cometem erros tão...primários (e que ainda sim têm grande popularidade).
A questão de divulgar mais as obras LGBTs é uma questão de princípio pessoal e de causa: há muita literatura hétero no mundo. Se a obra em questão é boa ou não, fica a cargo da resenha crítica que o nosso perfil disponibiliza.
evig: (04 - banco)
Em memória de D. Helena

- Queria ter visto a abertura das olimpíadas. Dizem que foi tão bonito...
- Foi ontem neh?!
- Foi, mais foi muito tarde, eu fui dormir.

Eu estava me fodendo pras olimpíadas, mas eu supria minhas demandas de beleza por outros meios, outras mídias. Minha avó só tianha a TV e não era sempre que passava algo bonito nos canais. Além disso, ela dividia o aparelho injustamente com os netos, que brotavam do nada na hora da sua única novela, trocavam de canal sem permissão e sentavam bem em frente à tela.

- Vai passar reprise, vó.

Não passou.

- Deve ter na internet, vó.

Até tinha, mas ela mau enchergava na tela pequena do meu smarthfone.

- As férias estão chegando, vó.

Nem estavam, mas “as férias estão chegando” era como um mantra pra ela; vivia repetindo sempre que estava de saco cheio dos netos, dos filhos, daquela casa. O problema era que ela sempre ia para a minha casa (a casa da minha mãe), no interior e com os filhos e os netos, então era meio que uma ilusão.
evig: (14 - cello)
Em memória de D. Helena

Cheguei em casa e estavam todos na pequena sala olhando pra TV, agora preto e branco, sugerindo programas canais soluções reclamações. Deixei meu material no quarto e fui entender o que estava acontecendo. Minha vó falava “poe no canal do padre”, meu tio reclamava “eu não quero isso na minha TV não” e o meu outro tio respondia “essa TV não tem outra entrada, é velha, por isso fica sem cor”. O marido da minha tia entrou com o controle em uma mãe e o celular na outra, reclamando com a possível atendente (porque elas são sempre mulheres?), meio gritando que não tinha cartão nenhum na caixa onde veio o aparelho, que o problemas era no segundo ponto, que a TV tava em preto e branco, e se devido ao seu pacote era de graça mesmo. Fui arrumar minha janta.

Uma hora e meia depois, mais ou menos, minha vó dizia “poe no canal do padre, eu quero ver o padre”, meu tio pedia “quero ver bang-bang, não tem bang-bang?” e o meu outro tio zapeava os canais tentando achar os prometidos cento e sei lá quantos canais da TV à cabo. Percebi que só pegavam os canais abertos. Nem tive tempo de ficar meio feliz. O marido da minha tia ainda estava no celular com a atendente, já bem irritado (não que precisasse muito para que ele se irritasse), já cancelando o segundo ponto e mandando alguém vir buscar o aparelho porque a TV dos meninos tava ligada no video-game mesmo e ele não queria mais.

No dia seguinte quando cheguei, a TV estava à cores, com os canais abertos de todos os dias. Minha vó me disse que estava só com os meninos quando o homem da TV bateu no portão e perguntou se era lá que seria instalado a TV à cabo. Ela disse que sim, e mandou o homem ir lá em cima. (Só um esclarecimento: a casa da minha vó e da minha tia ficam no mesmo terreno. A da minha tia fica mais em baixo, perto do portão e a da minha vó, menorzinha, fica lá em cima.)

Minha vó parou de contar e ficou me olhando com aqueles olhos castanhos claros e espertos, tão diferentes dos meus, e deu uma risada.