evig: (04 - banco)
Juliet ([personal profile] evig) wrote2017-04-19 10:11 am
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Os Filhos de Anansi, de Neil Gaiman

Li algumas obras de Gaimam, tanto em prosa quanto em HQ e ao ler os Filhos de Anansi, fiquei com a sensação de que este livro fora escrito por um escritor novato. Até então, nenhuma obra de Gaiman me suscitou tanto desgosto. A Verdade é Caverna nas Montanhas Negras tem um problema de verossimilhança no ponto crucial da história, o nó da trama, mas apesar disso, é uma ótima história e tem seu charme na forma mista de livro ilustrado e história em quadrinhos. Os Filhos de Anansi não tem um problema estrutural propriamente. Mas há uma série de metáforas que se anulam (por exemplo: “Fulano estava tal como Sicrando quando não estava fazendo tal coisa.”); personagens que são caricatos; o limão que não tem função alguma dentro da narrativa; o relacionamento entre o protagonista e sua noiva ser oportunamente mediocre, então quando o seu irmão aparece e fode tudo, não é um grande problema, já que eles nem se amavam mesmo...

A história gira em torno de Charles, que tem uma vida mediana e descobre que seu pai, com quem não tem uma boa relação devido a diversas humilhações sofridas na infância, morreu. Ele viaja para sua cidade natal e descobre por uma das vizinhas que tem um irmão e se ele quiser, pode chamá-lo. Sem acreditar muito no método descrito pela velha, Fat Charles (como é chamado) não só recebe a visita de seu irmão, como não consegue mais se livrar dele. Spider é o tipo de personagem que me irrita do início ao fim. Sendo um semi-deus, sua vida é fácil e muito boa, faz o que quer, manipula as pessoas e não tem problemas de consciência nenhuma, sendo o extremo oposto de Charles.

O foco narrativo é em Charles e deveríamos sentir empatia por ele, já que ele tem uma vidinha mais ou menos e agora ela está absurdamente ruim, por culpa desse irmão que ele não consegue mandar embora; além de ser a porta por onde adentramos nesse mundo fantástico (sendo um tipo muito recorrente nas obras de Gaiman). Mas a empatia não me ocorreu em nenhum momento. O problema com o pai tem até uma explicação razoável, mas como pessoa adulta, e depois de tomarmos conhecimento de que o jeito brincalhão (irritante, confesso) tem o lado bondoso e que alegra pessoas que lhe são caras (a mãe de Charles é o exemplo narrado), sua revolta parece ser uma birra que se estendeu por tempo demais.

Para tirar o irmão de sua vida a alternativa que Charles encontra é voltar para sua cidade natal e falar com a vizinha que lhe revelou que tinha um irmão. É apresentado mais outras três velhinhas que tem trejeitos muito peculiares, mas que estão na trama com uma função muito clara de ligar Charles ao Início do Mundo (um plano do além ou algo assim), para que ele peça para algum dos seres que encontrar que realize seu desejo. Charles recebe o mínimo de instrução possível porque as velhas parecem impacientes o tempo todo e o ajudam de clara má vontade. No Início do Mundo, Charle vai pedindo ajuda a várias criaturas e esse é o momento onde as descrições de Gaiman têm um apelo plástico, que por mais desolado que seja o cenário e suas criaturas, é belo. Voltamos a esses cenários quando a Mulher-Pássaro aprisiona Spider e quando Charles volta ao Inicío do Mundo com Spider para salvar a sogra (comento isso mais adiante).

Há um diálogo com o filme Pássaros de Hitcock, porque a única criatura que aceita o pedido vago de sumir com Spider é a Mulher-Pássaro. Particularmente gosto dessas cenas, quando Spider é atacado por uma variedade de pássaros “inofensivos”. A partir desse momento, Charles percebe que também está sendo atacado porque deu a linhagem de seu pai para a criatura, sem pensar que ele próprio faz parte dessa linhagem... Podemos tentar nos enganar e dizer que Charle estava tão irritado e desesperado para sumir com o irmão que ele se esqueceu de que faz parte da linhagem do próprio pai...

Contatado pelo irmão e tendo que lidar com mais esse problema, além dos estragos do próprio Spider, eles se juntam para reverter o trato e novamente Charles viaja até sua cidade natal para falar com a vizinha, que resolveu viajar para a sua ilha natal, que por um acaso é a ilha onde seu chefe criminoso está desfrutando de seu dinheiro e sua liberdade, que também faz parte de uma das paradas do cruzeiro em que a ex-noiva (nessa altura, ela tinha descoberto que fora enganada) de Charle está com a mãe... A policial que investiga o chefe de Chales (que o conhecia e protagonizou uma cena de fanservice totalmente deslocada) também está na ilha, mas conscientemente atrás do criminoso. O narrador até nos dá uma teoria de que no mundo apenas umas 500 pessoas se conhecem e elas ficam se encontrando... Ao chegar na ilha, Charle recebe um limão de um taxista e não importa com quem ele fale, seu interlocutor sempre pergunta sobre esse limão. Até o momento eu não encontrei função para esse limão e o fato dos moradores da ilha pedirem para vê-lo. Se tratando de piada (que eu não entendi) ou relação com alguma passagem do mito no qual o livro se inspira, dentro da narrativa isso não tem função alguma.

Existe uma trama paralela, do chefe de Charles, que rouba há anos seus clientes, tenta incriminar Charle, mata a viúva de um de seus clientes e, na ilha, mantém a ex-noiva de Charle e sua mãe trancafiadas na adega da casa por achar que elas fazem parte de uma conspiração para levá-lo preso. Ele é o personagem mau da história, o vilão associado ao Tigre, que por sua vez é o inimigo principal de Anansi. E como vilão, ele tem um final trágico pelas mãos de Rose e a ajuda inesperada do fantasma da mulher que ele matara... Num encontro com Charle e a policial num restaurante do hotel, Charle canta em público para se salvar e salvar a policial e acaba descobrindo que tem algum poder herdado do pai deus, e esse poder tem a ver com canções. Esse é o paralelo com o mito de Anansi, o deus que detém todas as canções que criaram o mundo. E em algum momento da narrativa, Charle sabe que Spider era parte de si e se lamenta dele não ter ficado com nada de legal, mas nesse momento sabemos que ele é de fato o herdeiro de Anansi.

Spider vai se transformando ao longo da narrativa por causa do amor que sente pela Rose e pelo irmão... Ok, Juliet, há coisas piores do que acreditar que o amor muda as pessoas, mesmo elas sendo meio deuses.

Charles consegue reverter o pedido feito a Mulher-Pássaro. Spider consegue derrotar o Tigre (uma vez capturado pela Mulher-Pássaro, ela o entregou ao Tigre). Os irmãos fazem as pazes entre si e Spider com Rose, depois do caso com o chefe de Charles. Os irmãos então vão até o Início do Mundo para salvar a mãe de Rose, cujo afeto nenhum dos dois tinha (o que me pareceu estranho já que o pai de Charles não fez isso para salvar a esposa, que amava), e acabam aprisionando o Tigre numa caverna pela eternidade ou algo perto disso.

Vendo algumas resenhas sobre esse livro, novamente fiquei com a sensação de que só eu não gostei desse livro. Inclusive, ele é muito recomendado para leitores iniciantes de Gaiman, por ser um livro “leve e divertido”. A questão dele ser divertido, eu ri/sorri apenas duas vezes: quando Charles aparece no enterro errado, descobrindo só depois de fazer um pequeno discurso (algo meio forçado vindo de um personagem com medo de sentir vergonha; e sobretudo, estruturalmente falando, já que muitos dizem que o humor do livro é inglês), e na menção da mensagem do cartão de aniversário. Em nenhum outro momento eu se quer pensei “a isso foi uma piada”, ou “isso era para ser engraçado”. Mas esse aspecto faz parte do meu problema geral com humor.

Apesar dessa crítica ácida, eu gostaria de ter gostado desse livro, por se inspirar numa mitologia desconhecida e pouquíssimo explorada fora de sua região de origem.

[personal profile] kaiceph 2017-04-21 01:43 pm (UTC)(link)
Acho que a inconsistência do Charlie é culpa do autor.

Deuses do helenismo também são assim, mas acho que eles não têm preferência (se tiverem, eu tou ferrado), exceto talvez pelo Dionísio e pela Afrodite, que preferem oferendas em forma de sexo e arte e coisas assim, porque faz parte do culto deles.