evig: (15 - leitura)
Juliet ([personal profile] evig) wrote2017-03-29 01:46 pm
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O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë

Eu iniciei a leitura deste livro em 2012 ou 2013 e parei no capítulo XII devido às circunstâncias externas das quais eu não me lembro. Reli recentemente e integralmente.
Essa edição que tenho é a que a Leya (pelo selo Lua de Papel) lançou em 2009 devido à relação que os personagens de Crepúsculo têm com a obra. Dito isso, a capa, a orelha e a sinopse trabalham em função dessa relação, com o subtítulo O amor nunca morre! e o catálogo sistemático categorizando a obra como literatura juvenil. Eu comecei a ler O Morro do Ventos Uivantes por indicação e esta era a edição que veio parar aqui em casa... mas eu sabia antecipadamente sobre o plot e que a obra faz parte do cânone literário, e por isso, não pode ser apenas “uma surpreendente história de amor”, como esta edição faz crer. Não estou querendo dizer que uma história de amor não possa constar num cânone literário. Romeu e Julieta é canônico. Mas a história de Cathy e Hearthcliff tem mais implicações complexas que uma história de amor simplesmente.
[Spoilers]

Primeiramente, Cathy e Hearthcliff não realizam esse amor. Cathy morre na metade do livro e a outra metade trata da segunda geração dos personagens, que sofrem por consequência da vingança de Hearthcliff. Então, tratar a obra como uma história de amor só dá conta de uma parte dela. E esse amor, o que teria de surpreendente? Os infortúnios sofrido pelos dois nada tem a ver com destino como diz a sinopse esta edição. Cathy escolhe não se casar com Hearthcliff, que por sua vez, escolhe seduzir a cunhada dela, fugindo e deixando Cathy louca, à beira da morte. Quando Hearthcliff descobre que Cathy morreu, ele não deseja que ela descanse em paz, quer que ela o assombre, e é isso que ela faz, infeliz, sem conseguir entrar dentro de sua casa de infância. Hearthcliff vive infeliz e só sente prazer na complexa vingança que articula contra todos que lhe fizeram mal e seus descendentes, inclusive seu próprio filho, mas até isso depois de um tempo não significa mais nada e ele acaba morrendo de um jeito parecido com o modo que Cathy morreu.

A questão desse amor é que Cathy e Heathcliff são teimosos, orgulhosos e caprichosos, e depois da morte de Cathy, Hearthcliff fica obsessivo e extremamente violento e cruel. Eles querem ficar juntos, mas só tomam atitudes que levam ao afastamento, às brigas e por fim à morte. Eles só conseguem ficar juntos depois de mortos. E essa sequência de decisões contraditórias tem início na escolha de Cathy para matrimônio: ela escolhe Edgar Linton, o vizinho, por que ela tem a sensação de que acabaria pedindo esmola caso se casasse com Hearthcliff. Temos aqui uma questão de diferenças de classes. O casamento com Linton é de longe mais vantajoso: Linton é o herdeiro da Granja do Toldos e tem educação refinada; Hearthcliff é um cigano sem nome. E essa diferença fica clara quando ela volta da Granja do Toldos com um vestido de seda e mal cumprimenta Hearthcliff porque ele estava sujo. A partir desse momento, os dois, que eram tão próximos, se afastam até culminar na fuga de Hearthcliff depois de ouvir que Cathy se casaria com Linton. Quando ele volta, dois anos depois, com uma fortuna, já não há a possibilidade deles ficarem juntos, nem como amigos, já que Linton não o quer em sua casa, independente dos caprichos de Cathy. Hearthcliff aproveita as poucas vezes que foi aceito na casa para seduzir a irmã de Linton, que acaba se apaixonando por ele. Num acesso de ciúmes e furia, meio fingido de início quando simula um desmaio, Cathy jejua e dorme mal por três dias depois que Hearthcliff foge com a cunhada. Depois se sabe que Cathy estava grávida, e nunca mais se recuperou da “febre cerebral” que a acometeu. Morreu ao dar a luz.

A vingança de Heartcliff é mais imediatamente contra seus opressores: Hindley Earnshaw, Edgar Linton e a própria Cathy. Earnshaw pelos maus tratos que sofrera; Edgar por ser seu rival; e Cathy por ter preterido o conforto material à se casar com ele. Claro que neste último caso, sua vingança é ambígua e ela assume muitas vezes um sentimento de culpa em relação à ela. Quando a vingança se estende a seus descendentes, as motivações se complexificam: Catherine é filha de Cathy e Edgar Linton, logo, merece sofrer para que seu pai também sofra, mas também porque ela é altiva como a mãe e goza dos privilégios que Hearthcliff nunca teve; seu filho Linton, que é o oposto do pai, e consequentemente o que um menino deveria ser, enfermo, efeminado e manhoso; e Harenton Earnshaw, que assim como a relação de vingança com Cathy, possui ambiguidade, sendo ele muito parecido com Hearthcliff e tendo desenvolvido uma relação que se aproxima de um afeto paterno, já que seu pai (Hindley) o negligenciava. A repetição dos nomes é proposital, justamente para serem confundidos com seus progenitores.

Hearthcliff tem êxito em praticamente todos os aspectos da vingança. Consegue as propriedades d'O Morro dos Ventos Uivantes, e mediante o casamento forçado de Catherine com seu filho, a Granja dos Tordos. Hindley morre na ruína. Edgar Linton morre depois de sua filha ficar encarcerada e ser obrigada a se casar. Linton morre pouco tempo depois do casamento, neglicenciado. Catherine é obrigada a viver reclusa, sem conforto, sendo humilhada e agredida. Harenton se torna um rapaz sem educação e trabalhando como criado na propriedade que deveria ter herdado.
Catherine e Hareton, incluse são espelhados em Cathy e Heartcliff. Além das semelhanças de temperamento e físicas, há uma inversão na trajetória, como se a autora demonstrasse um caminho menos destrutivo que unisse pessoas de estratos sociais diferentes: a cultura e a educação. Catherine e Harenton não se unem para se revoltarem contra a tirania de Hearthcliff (inclusive porque Hareton, mesmo discordando dele, o vê como figura paterna), mas é através dos livros e dos ensinos de leitura que Catherine oferece a Hareton (não antes de levar uma bronca de sua criada e do inquilino da Granja, ambos narradores, por humilhá-lo).

O que me parece um pouco frágil na obra é que Heartcliff, não se arrependendo do sofrimento que causou, consegue o que quer, inclusive depois de morto, ao se unir ao fantasma de Cathy, que assombrava os arredores. Mostrar que a educação e a cultura (aliadas a uma boa vontade) pode superar preconceitos de classe, pode valer para Cathy e Harenton porque naquele momento, ambos estavam destituídos de seus privilégios financeiros. No caso de Cathy e Hearthcliff, ela, como mulher da época, estava fadada à escolha que fez, e ele estava fadado a ser visto sempre como um cigano. A educação e a cultura não ia resolver a tensão entre eles.

Claro que o que eu estou julgando como fragilidade da obra pode ser apenas uma leitura minha que ainda não deu conta desse aspecto, já que as personagens são todas muito complexas e tridimensionais. Caso eu descubra uma solução ou outra linha de raciocínio, abro uma nota. De todo modo, dá pra entender a complexidade dessa obra e a injustiça que esta edição faz dela. Mas pelo menos podemos dizer que a série Crepúsculo fez com que muitos jovens lessem um livro de qualidade e complexidade que, espero, os leitores tenham aproveitado.

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